Vozes dos Refugiados

A AiDH editará livro sobre direitos humanos aos refugiados. Pretende-se abordar o tema em duas perspectivas distintas: a primeira delas responderá perguntas comuns dos refugiados, orientando-os a buscar ajudas e orientações; a segunda será dirigida às autoridades públicas que mantém contato com refugiados. Para tanto, a AiDH conta com a experiência e conhecimento de Amr Houdaifa. Durante o processo de elaboração do livro, a AiDH compartilhará histórias de vida que dão cor e visibilidade ao problema que está ao lado de todos nós. Nesta primeira entrevista conhecemos mais o colaborador Amr Houdaifa, que está no Brasil desde 2015 e foi o primeiro refugiado a obter título de mestre na UFPR. Formado em Direito e jornalismo, ele nos conta um pouco mais da sua trajetória e da sua percepção de mundo. Ao fim também compartilhamos materiais produzidos e entrevistas já concedidas por ele.


Nome: Amr Houdaifa

País de origem: Síria

Idade: 30

Quando chegou no Brasil: 11 de março de 2015

 

O refúgio é concedido ao imigrante por fundado temor de perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas. Enquanto tramita um processo de refúgio, pedidos de expulsão ou extradição ficam suspensos. Além do refúgio existe a política de asilo, que é prevista no artigo 4º da Constituição Federal e não possui lei regulamentadora. Diferentemente do refúgio, no asilo, os efeitos só se produzem depois da sua concessão. Antes disso, a pessoa que estiver no país estará em situação de ilegalidade.

Neste sentido, a AiDH, que tem como missão fomentar a implementação de políticas públicas em prol da Agenda 2030, pactuada com as Nações Unidas, lançará dois livros sobre o tema: o primeiro deles com orientações para refugiados e outro livro com orientações para as autoridades públicas que trabalham com o tema.

Além disso, pretende, também, dar visibilidade a tantas histórias de vida que atualmente se cruzam em nossos territórios. Para elaboração do material tem Amr Houdaifa como importante aliado, que atualmente está escrevendo as principais perguntas de quem chega ao país.

São histórias carregadas de sofrimento e ao mesmo tempo de esperança, na qual temos a oportunidade de compartilharmos experiências e crescermos juntos em uma cultura de paz e não violência, que reflete a razão das pessoas saírem de seus países e buscarem novos horizontes.

Em entrevista já concedida em 21 de junho de 2019, Amr Houdaifa afirma que “quando você precisa deixar seu país, você sente que nada é seu. Parece que nem o ar é seu”. Vindo da síria em março de 2015, assim como tantos outros imigrantes refugiados, Amr Houdaifa tem construído sua trajetória no Brasil e nos conta um pouco mais sobre a sua experiência.

A intenção deste texto é compartilhar um pouco da visão de quem chega até nós. Também é uma oportunidade de convivência e aprendizado cultural a quem tem muito a nos ensinar. Atualmente são 11 mil refugiados no Brasil. Leia abaixo a entrevista e também acesso os materiais por ele compartilhados conosco sobre o tema de sua pesquisa.

 

Entrevistador. Como foi a decisão de sair do seu país e como chegou até aqui?

AMR. Saí da Síria em 2014 por causa da guerra e por causa do serviço militar. Eu não queria participar da guerra...matar alguém ou alguém me matar. Acho que sou um bom soldado, mas não com armas. Como não podia ficar por causa disso eu decidi sair da Síria.

Após a sua decisão de sair da Síria veio direto para o Brasil? Como foi a sua entrada no país?

AMR. Não. Logo após sair da Síria me mudei para o Líbano onde trabalhei por um ano. Depois não renovaram meu visto especialmente por causa do racismo. Então procurei vários países europeus e quando estava passando ao lado da embaixada do Brasil no Líbano me perguntei: por que não tento aqui? Deixei meus documentos e 3 dias depois alguém me ligou da Embaixada. Fui correndo e 4 dias depois viajei para o Brasil.

E como foi sua chegada no Brasil?

AMR. Eu já tinha a autorização para entrar no país. Na época a entrada dos sírios no país não era difícil. Depois, pelo que soube de outras pessoas, a situação ficou bem mais difícil. Quando cheguei não falava português e o avião pousou em São Paulo. Um policial me ajudou a chegar até Curitiba pois não tinha CPF e não conseguia me deslocar até o Paraná.

Qual a sua avaliação quanto a política de refugiados no Brasil?

AMR. A facilidade foi fazer o pedido de refúgio. O pedido parece fácil, mas como conheço pessoas em situações parecidas sei que conseguir o refúgio as vezes chega a 5 anos e muitas pessoas não conseguem a condição de refugiado. Pense que elas ficam 5 anos como solicitantes de refúgio. Não existe um critério, um tempo máximo para ter uma entrevista e um retorno. Essas pessoas ficam completamente na informalidade.

Além da informalidade também há outros fatores difíceis em um país estrangeiro...

AMR. Exatamente. As vezes não sabem usar sequer o computador. A Universidade Federal ajuda, pessoas que estão aqui também auxiliam na tradução de documentos, mas nem todo mundo sabe procurar esta ajuda. Esta deveria ser a tarefa da ACNUR, mas o trabalho dela nem sempre chega até as pessoas.

E quais são as principais dificuldades enfrentadas? Conte um pouco da sua experiência.

AMR. A primeira grande dificuldade é a moradia. O Brasil não está preparado para recolher refugiados e arrumar para eles um lugar provisório até conseguir encontrar uma casa. Quando cheguei fiquei literalmente na rua, mais especificamente, na Praça Tiradentes. Fiquei lá 3 dias.

E como conseguiu algum lugar para morar?

AMR. Encontrei com uma pessoa que falava inglês...não me lembro o nome dele, acabei chamando ele de inglês. Estava lá entre nós. Ele conseguiu um lugar para morar pois a senhora não pedia fiador, que era a maior dificuldade para um contrato de aluguel. Como um refugiado conseguirá um fiador? A gente chega desesperado e sem dinheiro. Fica contando as moedas, as vezes não se come....não haverá um voluntário a fiador ou alguém que possa pagar um seguro fiança.

E benefícios sociais? Existe algo para os refugiados?

AMR. O Bolsa Família, até conseguir um trabalho, também não é fácil. Depois que estabiliza a questão de moradia e plano de trabalho, com algum emprego, a situação até se torna mais factível. 

Mas qual a sua experiência quanto a obtenção de emprego?

AMR. O trabalho na maioria das vezes não tem as mesmas condições dos brasileiros. Os refugiados que conheço trabalham fora da área de atuação ou formação. Conheço médico trabalhando como garçom, etc. Especialmente os haitianos aceitam subemprego, acabam aceitando qualquer tipo de salário. O salário máximo que sei entre eles seria 1300 reais por mês. Na maioria das vezes é menos.

Você também quer dizer que a mesma função entre brasileiros e refugiados tem remuneração completamente diferente?

AMR. É evidente a grande desigualdade de emprego entre refugiados e brasileiros...e isso não é culpa dos refugiados. Os empregadores contratam estrangeiros porque é mais barato. É uma lógica puramente econômica. Também não há uma diretriz estruturada para que os refugiados possam atuar na sua área de formação. É tudo uma questão de sobrevivência.

E a sua trajetória? Como foi?

AMR. O primeiro desafio é aprender a língua. Estudei sozinho e depois encontrei um curso de português para refugiados na UFPR. Uma das minhas primeiras iniciativas quando cheguei foi procurar a UFPR para conseguir validar o meu diploma. Foi lá que soube um pouco mais de oportunidades que consegui me inserir. Sou formado em jornalismo e em direito e queria validá-lo. Lá me contaram sobre uma resolução da Universidade, que é a Resolução n. 5, de 2015, que regulamenta o processo de mestrado para os migrantes e refugiados. Com isso, não precisamos passar pelo teste seletivo junto com os brasileiros para fazermos o curso, mas precisamos ter proficiência em português e ter o projeto aprovado por uma banca. Então fui atrás, tive que fazer uma prova em português que era bastante difícil. Passei na segunda vez. Depois disso falei com o Professor Gediel que me ajudou muito. Foi feito um projeto e uma banca para avaliação, na qual fui aprovado.

E como  foi ser refugiado e mestrando?

AMR. No começo não consegui bolsa, foi muito difícil. Recebi uma bolsa do projeto hospitalidade dirigido pela Prof. Cassiana e Prof. Gediel. Era uma bolsa de mil reais para cursar o mestrado. Depois consegui uma bolsa pela CAPES no valor de R$1500. Foi assim e com alguns serviços extras que tenho sobrevivi. Trabalho agora com as perspectivas do doutorado e com novos projetos que tem surgido

Na verdade não falamos ainda sobre sua pesquisa. Poderia contar mais sobre isso?

AMR. Fiz a minha pesquisa sobre “A participação política do migrante: entre a teoria e o direito internacional e suas aplicações no Brasil”. Conclui em 18 de dezembro de 2019 e sei que sou o primeiro refugiado a ter título de mestre. É um tema importante e que abala o migrante. Eu já cheguei a sair de um protesto com medo que isto afetasse a minha permanência no Brasil. Embora tenha uma previsão para refugiados não há direito ao voto, por exemplo. São pontos importantes para que os refugiados tenham vozes, pertencimento onde quer que estejam, segurança para expressão dos seus direitos e perspectivas políticas.

Mas você também deve ter contato com seus familiares e outras pessoas na Síria. Como as pessoas estão lá? Qual o motivo para quererem sair de seus países?

AMR. Sobretudo após a lei americana contra a Síria, que impôs restrições econômicas, a vida dificultou bastante. As pessoas estão querendo sair para sobreviver. Estão vendendo tudo para conseguir pagar as passagens e a chegada para qualquer outro país...no máximo 10% das pessoas que estão pedindo vistos estão conseguindo. Mas sei de pessoas indo para todos os lugares. É uma situação de desespero.

 **Assista aqui reportagem sobre Amr Houdaifa no G1

http://g1.globo.com/pr/parana/bom-dia-pr/videos/t/edicoes/v/conheca-a-historia-de-amr-houdaifa-o-refugiado-sirio-que-recebeu-titulo-de-mestre-da-ufpr/8298904/

TV UFPR

**Assista entrevista de Amr Houdaifa na TV UFPR sobre a Guerra na Síria

https://www.youtube.com/watch?v=bdB2HIlGOig

**Leia aqui matéria jornalística da UFPR sobre Amr Houdaifa

https://www.ufpr.br/portalufpr/noticias/refugiado-sirio-e-o-primeiro-a-ser-diplomado-mestre-pela-ufpr/